BICHO DE PÉ
Bicho de pé, você já teve um?! Dá uma coceirinha gostosa, né? Mas de calçado fechado incomoda demais... o pé começa a suar e a vontade é sair correndo sem destino. Era o que Marilza estava sentindo ao sair de casa naquele dia de sapato escolar, já um pouco apertado no pé. Nem me lembro bem qual era a marca: Verlon ou Vulcabras; fazia parte do seu uniforme, ou como se dizia no jargão militar: farda. Sua vontade era atirá-lo o mais longe que pudesse, com certeza não sentiria saudade dele. Pois sim, mas isso ela não fez, mas retornou pra casa ainda em tempo de não se atrasar. Pegou um par de tamancos com fivela de couro, bem mais confortável apesar da dureza do solado de madeira. E lá foi ela, toda prosa em sua nova altura, parecia até gente grande: pomposa. O que não esperava, embora já soubesse, que aquilo seria motivo de suspensão; no mínimo, ser chamada na coordenação para maiores explicações. Mesmo assim, adentrou o pátio escolar ressabiada. Na vistoria da portaria, fingiram que não viram, mas na sala de aula sempre tem um dedo duro. Logo quem?! Sua priminha querida, com quem jogava queimado quase todos os dias na rua de terra batida. Dito e feito, entregou-a de bandeja para a coordenação. Lá chegando, teve que dar as maiores desculpas à inquisidora para se ver livre da suspensão. Afinal, não poderia mais faltar às aulas, suas notas não andavam nada bem. Depois da bronca e das esfarrapadas desculpas, saiu como se estivesse em uma passarela de baile debutante, desfilando com seu gostoso bicho de pé. A então líder de classe, com aquele olhar que a tudo denunciava, ficou de cara grande ao vê-la novamente em sala de aula. Bem feito!
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Salatiel Barbosa

Mas como a onomatopeia não a denunciou antes da priminha dedo-duro? Posso ouvir o “toc-toc” ao ler.
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