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 MINHOCA LOURA — Joãozinho, quantos dias tem um mês? — Trinta dias, fessora! — Muito bem, Joãozinho, você está de parabéns! É dentro desse ponto de vista que Alberico faz aniversário no dia trinta, contudo comemora no dia trinta e um — coisa de gente da roça. Segundo sua mãe, a culpa foi toda do pai, que somente um mês após o nascimento do bebê se dirigiu ao Patrimônio para efetuar o registro no tabelionato: — Menino ou menina? — Menino homem! — A que horas nasceu? — Nove da manhã! — De qual dia do mês? Pensou: se o mês tem trinta dias, então foi no último dia... — Dia trinta, doutor! Assim, na data de seus cinco anos de vida, Alberico, ao amanhecer, se dirigiu à cama de sua mãe e atirou à queima-roupa: — Mãe, onde está o meu presente de aniversário? — O seu presente está aqui no canto da cama! Seu irmão caçula nascera naquela mesma madrugada de trinta e um de março. A discussão se dava em torno do nome do rebento: Lúcio ou Mário. Ante a dúvida, ficou o dito pelo não dito. O bendit...
FESTA ESCOLAR Era o mês de junho. Os ensaios de quadrilha davam um colorido novo às feições da garotada, principalmente quando se aproximavam os dias de Santo Antônio, São João e São Pedro. Nos ensaios não era necessário, mas nos torneios sim: o rapaz tinha que se apresentar a caráter. Bigodinho e cavanhaque de roceiro, riscados a lápis crayon ou a carvão, eram imprescindíveis. A calça remendada com retalhos combinando com uma camisa quadriculada de flanela, dobrada até o cotovelo. Sapatos do último Natal, apertados, rasgados, deixando aparecer o dedão dos pés; lenço de qualquer cor com laço amarrado ao pescoço. Lá estava Alberico em busca de sua dama. Essa, sempre com cabelos à Maria Chiquinha, matreira, com seu vestido de rendas e laços vermelhos desde a manga da blusa até o decote da cintura. As meias subiam até a altura dos joelhos, encontrando-se com as barras brancas do vestido rodado. Só se ouvia o mestre na pista de terra gritar: — Anarriê! — Caminho da roça! — Olha a cobra! A ...

CIDADE DOS MENINOS

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  Alberico, já um pouco crescido, ouviu falar que sua família iria morar em um novo bairro, cujo nome era "Cidade dos Meninos". Ficou todo entusiasmado, tendo a impressão de que se tratava de um lugar com muitos meninos e meninas vivendo sem a presença dos adultos, na mais perfeita harmonia. Tal entendimento estava equivocado. A cidade imaginária continha realmente as fantasias e as brincadeiras da infância, mas também a face verdadeira e sofrida das crianças pobres da periferia. A "Cidade dos Meninos", na realidade, era um orfanato criado por D. Darcy Vargas, que acabava dando referência a diversos bairros em seu entorno que, ainda sem nomes, se formavam sem qualquer infraestrutura em torno daquela casa de menores. Em um desses loteamentos improvisados, Cinco de Julho, é que foram morar. Era uma rua de chão, feia e comprida, tendo em uma das pontas um canavial e, logo em seguida, um dique de rio. Sempre que chovia, a área era toda inundada. Na outra ponta, pela qua...

HÉRCULES, POSSANTE E BRUCUTU

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A desativada Fábrica Nacional de Motores ficava localizada no distrito de Xerém, onde o marido de Neuza saía todos os dias para trabalhar como ajudante de montagem. Incentivado pelo primo, o pai de Alberico candidatou-se a uma vaga no setor de peças da empresa. Não foi aproveitado por não preencher um dos requisitos básicos: possuir o primário completo. Assim, continuou a viver de biscates até o dia em que se deparou com um conterrâneo apelidado de Zé Bigode, que lhe perguntou: — O que é que você está fazendo, Filim? — É, Zé. Estou num "merda" danada! Há três meses que cheguei ao Rio e não consigo trabalho. — Olha, meu patrão está preciando de um motorista habilitado, urgente! O aterro de um mangue na Baixada está a todo vapor, onde será instalada a Refinaria da Petrobras. A profissão que aprendera com seu pai já lhe havia sido útil no Exército, quando fora chofer de um coronel no quartel da Praia Vermelha. Agora, mais uma vez, o tirava da rua da amargura. Assim, logo que pos...

OS VIZINHOS DO 506

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  Ainda ontem, depois de 15 anos, deparei-me com minha nova vizinha, recém-instalada no 506. De forma educada, a cumprimentei. Ao invés de me retribuir urbanamente as boas-vindas, sacou do coldre uma pistola já um pouco enferrujada e disparou: — Você que é o morador do apartamento acima do meu? Pois é, estou incomodada! Nesse prédio arrastam cadeiras, cachorro late noite e dia, e a vizinha do meu andar não dobra a maçaneta da porta ao entrar ou ao sair. Mudei em busca de sossego, pois o antigo era um barulho infernal. Naquele mesmo instante percebi que não se tratava de uma pistola, mas sim de uma metralhadora à tiracolo, conduzida por uma barraqueira de plantão. Sorrateiramente, bati em retirada. Como se tais inquietudes injustificadas não fossem suficientes, nos dias seguintes notei que o marido da dita cuja não era muito diferente. Pelo contrário, era padrão. Esse se aboleta na área condominial, passando a utilizar a pia do salão gourmet para fazer suas higienes matinais: barba,...

CAFÉ COM PÃO... MANTEIGA NÃO

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  A chegada do trem à estação, na Baixada Fluminense, alvoroçou os passageiros: cabelos desarrumados, crianças chorando, mais o cansaço da noite não dormida, fizeram com que o nervosismo ficasse estampado na cara da família de Alberico. Retirantes caipiras que não sabiam o que fazer. Suas feições eram de indagação: — Será que estão nos esperando? — Não sei, não, mas, via das dúvidas, procure no fundo da mala o envelope da carta da prima Neuza e, se preciso for, peça a alguém para nos ajudar! — Se ela não vier, estamos perdidos. Como vamos nos arranjar, com pouco dinheiro e sem ter para onde ir? — Procure, mulher, e pare de falar. Parece que não confia em Deus? Já passava das duas da tarde. Neuza os esperava desde o meio-dia. O calor era insuportável naquele mês de janeiro, as trovoadas já se anunciavam e as chuvas eram mais do que previstas. Preocupados, atravessaram a cancela em busca da condução que os levaria a Xerém. Terminal rodoviário não existia. O que havia era uma placa co...

O MENINO E O PANGARÉ

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  Era verão. Turistas interioranos desceram a serra em direção ao litoral, mais precisamente, Marataízes, balneário espírito-santense. Lá chegando, hospedaram-se em uma pequena pousada à beira-mar. Na manhã seguinte, passaram a curtir a praia ainda paradisíaca. Alguns farofeiros de carteirinha consumiam milhos cozidos, picolés, churrasquinhos com farinha e cerveja, dentre outras guloseimas. À tarde, em família, depois da soneca, dos roncos e dos peidos, saíram para passear no calçadão. Na areia da praia, com suas ondas frenéticas, no ir e vir sem fim, havia um rapazinho magrelo de pele morena queimada pela maresia, conduzindo um pangaré para alugar na monta. Como não poderia deixar de ser, sem muita resistência dos pais, o filho de três anos pedia insistentemente pela cavalgada. O maratimba, esperto e doido para faturar um dindinho, percebeu a ansiedade do garotinho e se prontificou de imediato. Logo em seguida, colocou o pequeno cavaleiro na sela carcomida pelo tempo sobre o dorso...

VIAGEM DE TREM

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As paradas do trem nas estações sempre eram providas de biscoitos caseiros, broas de fubá, pedaços dequeijo da roça, carne de porco conservada na gordura e uma cuia de coité cheia de farofa de ovos. Os passageiros que embarcavam nas cidadezinhas eram, de certa forma, tipos sofridos e engraçados: gente simples, quase esfarrapada. Uns, com pés descalços e unhas sujas de terra da lavoura. Outros, com sapatos velhos e brilhosos, recém-lustrados. Os engraxates de plantão andavam de um lado para o outro nas plataformas, com uma caixa de madeira, oferecendo seus serviços: - Vai uma graxa aí, seu moço? Em nosso vagão, raramente entrava algum figurão. Esses estavam instalados na primeira classe, onde havia, inclusive, leitos com colchões de molas. Quando erravam de compartimento, eram observados por todos, com vários meneios de pescoço. Sem qualquer constrangimento, os olhos se cruzavam e, por si só, falavam e se entendiam. Não havia discriminação nessas trocas de olhares, e sim a surpresa de s...

A MARIA FUMAÇA

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  Quando fomos morar no Rio de Janeiro, ainda era criança.  E até hoje ouço o barulho do trem de ferro sobre os trilhos, alongando o som do seu apito:   - Piuííí, café com pão, manteiga não, piuííí... Já escurecia quando me colocaram no dorso de um cavalo marrom, de patas dianteiras manchadas de branco.  Meu tio na sela. As esporas brilhavam nas botas surradas pelo uso. Numa das mãos, a corda do cabresto. Na outra, a minha cintura.  Homem altivo. Encardido pelo sol. Lá de cima eu assistia a tudo e não entendia nada.   Gente apertando mãos, se abraçando, falando alto. Outras, carregando malas que pareciam caixotes.   As lamparinas a querosene foram acesas. A luz penetrou pelas frestas do assoalho do casarão e iluminou arreios, freios, selas e balaios pendurados nas vigas e colunas de madeira do porão. Foi ali que aconteceram as chorosas despedidas. Chegamos à estação já com a noite fechada.   O trem sairia logo. Mas antes era pr...

PROFESSORA APAIXONADA

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Pode parecer saudosismo. E é mesmo: saudosismo!   Ser professor(a) de zona rural é ser multifacetado(a). Não basta dominar as disciplinas. Tem que saber lidar com turma multisseriada: do primeiro ao quinto ano, todos na mesma sala, tudo ao mesmo tempo. Era o antigo primário.   Foi nessa saga que Arlene entrou. Ainda jovem. Não por falta de escolha, mas por paixão. Ama o que faz.  E é por isso que carrega as lembranças estampadas na alma. Muito cedo foi designada para escolas em fazendas e lugarejos distantes da sede do município. Acordar às quatro da matina virou rotina. A hora em que só os galos tinham fôlego pra cacarejar.   Quantas vezes cochilou com os joelhos encostados na poltrona da frente do ônibus, rumo à Agrovila, pra lecionar. Quantas noites dormiu na casa da tia Mariquinha só pra pegar a lotação da madrugada e não deixar a criançada sem aula. E que alegria era vê-la chegar. Lecionar em outro distrito já causava espanto. O nome dizia tudo: D...