A MARIA FUMAÇA

 


Quando fomos morar no Rio de Janeiro, ainda era criança.  E até hoje ouço o barulho do trem de ferro sobre os trilhos, alongando o som do seu apito:  

- Piuííí, café com pão, manteiga não, piuííí...

Já escurecia quando me colocaram no dorso de um cavalo marrom, de patas dianteiras manchadas de branco.  Meu tio na sela. As esporas brilhavam nas botas surradas pelo uso. Numa das mãos, a corda do cabresto. Na outra, a minha cintura.  Homem altivo. Encardido pelo sol.

Lá de cima eu assistia a tudo e não entendia nada.  

Gente apertando mãos, se abraçando, falando alto. Outras, carregando malas que pareciam caixotes.  
As lamparinas a querosene foram acesas. A luz penetrou pelas frestas do assoalho do casarão e iluminou arreios, freios, selas e balaios pendurados nas vigas e colunas de madeira do porão. Foi ali que aconteceram as chorosas despedidas.

Chegamos à estação já com a noite fechada.  

O trem sairia logo. Mas antes era preciso acomodar as bagagens no compartimento de cargas: malas, caixas, engradados. Tudo que pudesse ser útil — ou não — no começo de uma vida nova na cidade grande: panelas, roupas, alimentos não perecíveis.  

E, por último, os abraços e as recomendações de praxe. 

Subimos os degraus do vagão de passageiros.Terceira classe. Assentos de ripas de madeira que deixavam marcas achatadas nas costas, nas pernas e na bunda. De tempos em tempos era preciso levantar, esticar o corpo, espreguiçar.  

O maquinista deu o sinal. Um longo e profundo apito anunciou noite adentro o começo de uma nova vida, deslizando ao compasso dos trilhos:  

- Piuí!!! Café com pão, manteiga não. Piuííí!!!  
- Café com pão, manteiga não, não...


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Salatiel Barbosa

Comentários

  1. Texto saudosista de como a coragem se fez presente ao enfretar uma nova realidade
    onde a esperança e determinação seriam alicerces de uma nova caminhada.

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