A SAGA DE ALBERICO

 

Capítulo 1


Encontrava-me em alto mar, lutando contra a tempestade que se abatia sobre  pequeno veleiro. As águas da chuva, misturadas às ondas do mar, arremessavam de todos os lados, numa só invernada, rajadas ininterruptas de vento e granizo. 

As velas já estavam praticamente arriadas. Restava-me agora evitar que fôssemos à deriva. O barco rodopiava de um lado para o outro sob a nebulosa escuridão. O esbranquiçado das ondas e da chuva, na diagonal, batia com toda a força sobre a proteção da cabine, que a qualquer momento poderia ser transpassada. Dava a impressão de ser quase impossível vencer o vendaval. Mas, como por encanto, os vidros resistiam àquelas investidas mal sucedidas.

As botas de borracha, encharcadas até os canos, e a capa de chuva, que de nada adiantavam a não ser prejudicar os movimentos na condução do leme, faziam-me perder o controle a cada minuto. Mesmo assim, não poderia ceder ao ímpeto de despojar-me daquelas proteções e expor-me ao vento frio que, de forma impiedosa, permanecia sobre o meu corpo. Seria suicídio, na certa. Teria que perseverar, resistir o mais que pudesse e, acima de tudo, efetuar manobras arriscadas na tentativa de vencer não só a tempestade, mas também o medo, que a cada trovoada me deixava mais e mais apavorado.

A investida de uma onda violenta sobrepôs-se sobre o convés, acompanhada de uma rajada de vento, derrubando-me sobre o banco de madeira. Por um instante pensei ser jogado ao mar. Mas, precavido, segurei-me a uma corda amarrada ao mastro. Nada mais se via, a não ser o clarão dos relâmpagos que insistiam em anunciar um novo estrondo sobre a minha pequena embarcação. A tempestade não dava qualquer sinal de acabar. Horas e horas de luta intermitente.

Meio grogue pela ressaca do mar ou pela profundidade do sono, não sabendo ao certo se estava acordado ou dormindo, vi os primeiros clarões da madrugada em águas cristalinas.  

O barco flutuava num mar de calmaria. Nem uma marola sequer.

Ao longe, entre a linha do oceano e o encontro com o infinito, um navio se anunciava com suas bandeiras coladas às nuvens. Por um segundo, penso poder ele cair no precipício do além, mas mãos invisíveis o mantêm em equilíbrio. À minha frente, terra firme, repleta de pequenos barcos de pescadores, com as ondas num ir e vir frenético sobre a areia fina e branca da prainha, contrastando com o colorido encardido das casinhas ao pé do monte.

Ainda em transe, sentei-me sobre a proa. Ou melhor, sobre a cama, a observar aquela aldeia bucólica. Dei-me conta de que aquela travessia fora um sonho, um aviso. E de que, na vida real, eu teria que atravessar muitas turbulências, vendavais, maremotos. Mas, no tempo certo, minha vida estaria fadada aos ventos calmos, à segurança, à estabilidade e à bonança.

Agora acordado, na varanda, passei a observar um ponto fixo no horizonte, completamente inebriado em meus pensamentos, procurando um entendimento, uma significação mais precisa naquele emaranhado de símbolos. Ali, não me importando com os barulhos do cotidiano, entrei no silêncio profundo do meu ser, em visita às minhas outras vidas vividas nessa existência.

Imagens coloridas foram estampadas na tela do meu inconsciente, como se estivesse a rever, num filme, o meu passado. Antes em pequenos pedaços, agora por inteiro, sem cortes. Como a querer mostrar, assim como no sonho, as idas e vindas da busca pela sobrevivência nesse mar de incertezas que é a própria vida: sonhada, sofrida, brincada. Do menino, do jovem, do homem, do velho que, por circunstâncias alheias à sua vontade, é escolhido, induzido, conduzido a viver longe de sua gente.

Nas periferias da cidade grande, esperançoso por dias melhores, sem saber, sem ter uma noção exata, ele contribui para o desenvolvimento, para o progresso que pouco a pouco passa a destruir os seus sonhos, a sua família. Mas, mesmo assim, no imaginário, enxerga sempre uma luz no final do túnel. Nunca desiste, insiste, persiste, acreditando que o quadro de desolação é temporário e que, com um pouco mais de luta, irá encontrar a vitória tão almejada.

Esse povo de luta, de guerra, de vitórias que se espalham pelo Brasil, pelo mundo afora, construindo as grandes metrópoles sem qualquer condição econômica, dá o seu sangue, a sua alma e, na maioria das vezes, é esquecido, largado, abandonado pelos detentores do poder econômico e político, que enriqueceram e se elegeram à custa do suor e das lágrimas dessa gente sofrida e humilhada.

Nesse momento, as imagens se tornam mais nítidas e, como num passe de mágica, passo a ouvir no interior da minha alma a narrativa de um menino pobre do interior, que junto com sua família busca, na periferia dos grandes centros, uma nova perspectiva de vida, idealizada na superação das adversidades.


Salatiel Barbosa

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Capítulo II

BOI E GUIA

Aôa!!! Afasta boi Piano, entra boi Bordado! Um trancava, o outro seguia na curva do grotão. O primeiro parecia gente, entendia tudo que se falava. O segundo era um sem-vergonha, fingia que não entendia, mas dava conta do recado. Nem pareciam irmãos gêmeos de puro sangue. Gritar com bois de guia, nem pensar. O certo é conversar pouco e dar a ordem de uma só vez. A voz tem que ser baixa e firme. Boi de guia não pode ficar confuso, senão estonteia todos os outros bois sob o seu comando.

No eixo, amarrada por corrente, uma tora de mais de sete metros, com dez palmos de diâmetro. O peso do jacarandá, no terreno irregular, forçava as brochas de couro presas na última junta de bois. Castelo e Sargento não reclamavam, aguentavam o repuxo, junto ao cabeçalho. No meio, entre os primeiros e os últimos, mais quatro juntas faziam a força, obedecendo ao balanço do carretão: Prefeito e Fumaça; Azulado e Pinta Silva; Andarilho e Manchado; Pintado e Ouro Branco.

Esses bois, desde garrotes, eram colocados na canga, lado a lado, com os bois mais velhos. Agora, numa manobra para descer o morro, o carreiro colocava-os na marra, presos por correntes ao carretão. Funcionavam como freios na pirambeira abaixo. Piano e Bordado, na frente, iam guiando. Se Castelo e Sargento falhasse, seriam sacrificados.

A experiência, a habilidade e o manejo do carreiro é que tornavam a empreitada mais ou menos arriscada. Sem ele não era possível retirar as toras da mata. Com bastante prudência, desceram com certa facilidade e avançaram para o local de reversão da junta. Castelo e Sargento voltaram para a frente do cabeçalho e os outros, como antes, entre eles e os bois de guia.

O caminho estava livre, era hora de se despreocupar. O candeeiro, de pé torto, com uma vara comprida na mão, ia à frente abrindo as porteiras e cantarolando uma cantiga que mais parecia um lamento, combinando com o ranger das rodas de madeira do carretão, que se escutava ao longe de forma intermitente: _Ian... ian... ian..._


Sentado por cima do cabeçalho, o carreiro pensava em como passaria pela grota do Joaquim: a tora era muito comprida e teria dificuldade. Não demorou muito e teve que dar a ordem mais uma vez: - Aôôa!!! Boi Bordado. Aôôa, boi Piano. Os bois de trás também já entendiam esse comando, parando todos de uma só vez. O carreiro apeou para verificar o declive da grota. Era quase que uma valeta. Descia e subia logo em seguida.

Resolveu correr o risco, não colocando os bois na marra, e em seguida gritou para os bois de guia: "Vencedores, avante!!!" Num só solavanco começaram a descer a pequena grota. O peso do tronco foi quase todo por cima de Castelo e Sargento, mas em seguida o carreiro voltou a gritar: "Arriba, boi Bordado!!! Arriba, boi Piano!!! Aguenta, Prefeito e Fumaça!!! Suporta, Azulado e Pinta Silva!!! Força, Andarilho e Manchado!!! É agora, Pintado e Ouro Branco!!!"

Na hora em que começaram a subir, a tora ainda não havia descido. Foi o suficiente para o desespero do candeeiro. Castelo e Sargento ficaram suspensos pelos canzis, enforcados pelas brochas de couro. O carreiro entrou por baixo dos bois, tentando desamarrar a fivela, e não conseguiu. Naquele momento, mil pensamentos passaram pela sua cabeça. Os bois, já de olhos esbugalhados, viam o diabo pela greta.

O candeeiro, desesperado, começou a gritar. O carreiro só viu quando seu tio Joaquim desceu cafezal abaixo com uma foice, em direção aos bois dependurados. Em dois golpes certeiros, cortou as brochas de couro que os seguravam. Os dois bois despencaram sobre o pequeno córrego, fazendo com que a tora descesse.

Os outros bois suportaram a empreitada e arribaram, chegando logo em terreno plano para descansarem. Enquanto isso, Castelo e Sargento eram reconduzidos à canga para, depois, seguirem viagem rumo ao lugarejo de três ruas chamado Olho D’água.

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Salatel Barbosa

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