MINHOCA LOURA — Joãozinho, quantos dias tem um mês? — Trinta dias, fessora! — Muito bem, Joãozinho, você está de parabéns! É dentro desse ponto de vista que Alberico faz aniversário no dia trinta, contudo comemora no dia trinta e um — coisa de gente da roça. Segundo sua mãe, a culpa foi toda do pai, que somente um mês após o nascimento do bebê se dirigiu ao Patrimônio para efetuar o registro no tabelionato: — Menino ou menina? — Menino homem! — A que horas nasceu? — Nove da manhã! — De qual dia do mês? Pensou: se o mês tem trinta dias, então foi no último dia... — Dia trinta, doutor! Assim, na data de seus cinco anos de vida, Alberico, ao amanhecer, se dirigiu à cama de sua mãe e atirou à queima-roupa: — Mãe, onde está o meu presente de aniversário? — O seu presente está aqui no canto da cama! Seu irmão caçula nascera naquela mesma madrugada de trinta e um de março. A discussão se dava em torno do nome do rebento: Lúcio ou Mário. Ante a dúvida, ficou o dito pelo não dito. O bendit...
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Mostrando postagens de setembro, 2026
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FESTA ESCOLAR Era o mês de junho. Os ensaios de quadrilha davam um colorido novo às feições da garotada, principalmente quando se aproximavam os dias de Santo Antônio, São João e São Pedro. Nos ensaios não era necessário, mas nos torneios sim: o rapaz tinha que se apresentar a caráter. Bigodinho e cavanhaque de roceiro, riscados a lápis crayon ou a carvão, eram imprescindíveis. A calça remendada com retalhos combinando com uma camisa quadriculada de flanela, dobrada até o cotovelo. Sapatos do último Natal, apertados, rasgados, deixando aparecer o dedão dos pés; lenço de qualquer cor com laço amarrado ao pescoço. Lá estava Alberico em busca de sua dama. Essa, sempre com cabelos à Maria Chiquinha, matreira, com seu vestido de rendas e laços vermelhos desde a manga da blusa até o decote da cintura. As meias subiam até a altura dos joelhos, encontrando-se com as barras brancas do vestido rodado. Só se ouvia o mestre na pista de terra gritar: — Anarriê! — Caminho da roça! — Olha a cobra! A ...
CIDADE DOS MENINOS
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Alberico, já um pouco crescido, ouviu falar que sua família iria morar em um novo bairro, cujo nome era "Cidade dos Meninos". Ficou todo entusiasmado, tendo a impressão de que se tratava de um lugar com muitos meninos e meninas vivendo sem a presença dos adultos, na mais perfeita harmonia. Tal entendimento estava equivocado. A cidade imaginária continha realmente as fantasias e as brincadeiras da infância, mas também a face verdadeira e sofrida das crianças pobres da periferia. A "Cidade dos Meninos", na realidade, era um orfanato criado por D. Darcy Vargas, que acabava dando referência a diversos bairros em seu entorno que, ainda sem nomes, se formavam sem qualquer infraestrutura em torno daquela casa de menores. Em um desses loteamentos improvisados, Cinco de Julho, é que foram morar. Era uma rua de chão, feia e comprida, tendo em uma das pontas um canavial e, logo em seguida, um dique de rio. Sempre que chovia, a área era toda inundada. Na outra ponta, pela qua...
HÉRCULES, POSSANTE E BRUCUTU
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A desativada Fábrica Nacional de Motores ficava localizada no distrito de Xerém, onde o marido de Neuza saía todos os dias para trabalhar como ajudante de montagem. Incentivado pelo primo, o pai de Alberico candidatou-se a uma vaga no setor de peças da empresa. Não foi aproveitado por não preencher um dos requisitos básicos: possuir o primário completo. Assim, continuou a viver de biscates até o dia em que se deparou com um conterrâneo apelidado de Zé Bigode, que lhe perguntou: — O que é que você está fazendo, Filim? — É, Zé. Estou num "merda" danada! Há três meses que cheguei ao Rio e não consigo trabalho. — Olha, meu patrão está preciando de um motorista habilitado, urgente! O aterro de um mangue na Baixada está a todo vapor, onde será instalada a Refinaria da Petrobras. A profissão que aprendera com seu pai já lhe havia sido útil no Exército, quando fora chofer de um coronel no quartel da Praia Vermelha. Agora, mais uma vez, o tirava da rua da amargura. Assim, logo que pos...
OS VIZINHOS DO 506
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Ainda ontem, depois de 15 anos, deparei-me com minha nova vizinha, recém-instalada no 506. De forma educada, a cumprimentei. Ao invés de me retribuir urbanamente as boas-vindas, sacou do coldre uma pistola já um pouco enferrujada e disparou: — Você que é o morador do apartamento acima do meu? Pois é, estou incomodada! Nesse prédio arrastam cadeiras, cachorro late noite e dia, e a vizinha do meu andar não dobra a maçaneta da porta ao entrar ou ao sair. Mudei em busca de sossego, pois o antigo era um barulho infernal. Naquele mesmo instante percebi que não se tratava de uma pistola, mas sim de uma metralhadora à tiracolo, conduzida por uma barraqueira de plantão. Sorrateiramente, bati em retirada. Como se tais inquietudes injustificadas não fossem suficientes, nos dias seguintes notei que o marido da dita cuja não era muito diferente. Pelo contrário, era padrão. Esse se aboleta na área condominial, passando a utilizar a pia do salão gourmet para fazer suas higienes matinais: barba,...
CAFÉ COM PÃO... MANTEIGA NÃO
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A chegada do trem à estação, na Baixada Fluminense, alvoroçou os passageiros: cabelos desarrumados, crianças chorando, mais o cansaço da noite não dormida, fizeram com que o nervosismo ficasse estampado na cara da família de Alberico. Retirantes caipiras que não sabiam o que fazer. Suas feições eram de indagação: — Será que estão nos esperando? — Não sei, não, mas, via das dúvidas, procure no fundo da mala o envelope da carta da prima Neuza e, se preciso for, peça a alguém para nos ajudar! — Se ela não vier, estamos perdidos. Como vamos nos arranjar, com pouco dinheiro e sem ter para onde ir? — Procure, mulher, e pare de falar. Parece que não confia em Deus? Já passava das duas da tarde. Neuza os esperava desde o meio-dia. O calor era insuportável naquele mês de janeiro, as trovoadas já se anunciavam e as chuvas eram mais do que previstas. Preocupados, atravessaram a cancela em busca da condução que os levaria a Xerém. Terminal rodoviário não existia. O que havia era uma placa co...