HÉRCULES, POSSANTE E BRUCUTU



A desativada Fábrica Nacional de Motores ficava localizada no distrito de Xerém, onde o marido de Neuza saía todos os dias para trabalhar como ajudante de montagem.

Incentivado pelo primo, o pai de Alberico candidatou-se a uma vaga no setor de peças da empresa. Não foi aproveitado por não preencher um dos requisitos básicos: possuir o primário completo.

Assim, continuou a viver de biscates até o dia em que se deparou com um conterrâneo apelidado de Zé Bigode, que lhe perguntou:

— O que é que você está fazendo, Filim?

— É, Zé. Estou num "merda" danada! Há três meses que cheguei ao Rio e não consigo trabalho.

— Olha, meu patrão está preciando de um motorista habilitado, urgente! O aterro de um mangue na Baixada está a todo vapor, onde será instalada a Refinaria da Petrobras.

A profissão que aprendera com seu pai já lhe havia sido útil no Exército, quando fora chofer de um coronel no quartel da Praia Vermelha. Agora, mais uma vez, o tirava da rua da amargura. Assim, logo que possível, tratou de providenciar um lugar para instalar a sua prole.

Primeiramente, foram morar em uma casa de parede meia, de telhado sem forro, onde as palavras se comunicavam. Ouvia-se tudo, tudo mesmo que o casal do outro lado da parede estivesse fazendo, fossem brigas ou amor.

Nessa meia-água, a janela do quarto, de cor azul desgastado, se comunicava com a área externa, onde havia uma certa quantidade de areia de reboco. Na ausência da mãe, os irmãos pulavam o parapeito e ficavam brincando com carrinhos improvisados de meia-lajota, esculpidos nas laterais, com a impressão de capô com faróis nos buracos do tijolo. Ali passavam a tarde inteira, despercebidos em seus sonhos e viagens.

Em pouco tempo foi adquirida uma nova residência e também a confiança do empregador, quando então Alberico assistiu à entrada triunfal da frota de três caminhões basculantes da marca GMC, com os nomes escritos em seus para-choques: HÉRCULES, POSSANTE e BRUCUTU.

A partir daquele dia, Alberico, seu irmão e o colega gago passaram a brincar com tampas de latas arredondadas, supostos volantes, pela rua de terra, fazendo curvas e apostando corrida em veículos imaginários apelidados, também, de Hércules, Possante e Brucutu. Donde o gago, em seu caminhão, vociferava:

— "Du-tu-tu, a-to-iou, ti-te-sou o ta-tor tu-char!"

Traduzindo: Brucutu atolou, precisou trator puxar.

Só alegria!

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Salatiel Barbosa


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