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Mostrando postagens de agosto, 2026

O MENINO E O PANGARÉ

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  Era verão. Turistas interioranos desceram a serra em direção ao litoral, mais precisamente, Marataízes, balneário espírito-santense. Lá chegando, hospedaram-se em uma pequena pousada à beira-mar. Na manhã seguinte, passaram a curtir a praia ainda paradisíaca. Alguns farofeiros de carteirinha consumiam milhos cozidos, picolés, churrasquinhos com farinha e cerveja, dentre outras guloseimas. À tarde, em família, depois da soneca, dos roncos e dos peidos, saíram para passear no calçadão. Na areia da praia, com suas ondas frenéticas, no ir e vir sem fim, havia um rapazinho magrelo de pele morena queimada pela maresia, conduzindo um pangaré para alugar na monta. Como não poderia deixar de ser, sem muita resistência dos pais, o filho de três anos pedia insistentemente pela cavalgada. O maratimba, esperto e doido para faturar um dindinho, percebeu a ansiedade do garotinho e se prontificou de imediato. Logo em seguida, colocou o pequeno cavaleiro na sela carcomida pelo tempo sobre o dorso...

VIAGEM DE TREM

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As paradas do trem nas estações sempre eram providas de biscoitos caseiros, broas de fubá, pedaços dequeijo da roça, carne de porco conservada na gordura e uma cuia de coité cheia de farofa de ovos. Os passageiros que embarcavam nas cidadezinhas eram, de certa forma, tipos sofridos e engraçados: gente simples, quase esfarrapada. Uns, com pés descalços e unhas sujas de terra da lavoura. Outros, com sapatos velhos e brilhosos, recém-lustrados. Os engraxates de plantão andavam de um lado para o outro nas plataformas, com uma caixa de madeira, oferecendo seus serviços: - Vai uma graxa aí, seu moço? Em nosso vagão, raramente entrava algum figurão. Esses estavam instalados na primeira classe, onde havia, inclusive, leitos com colchões de molas. Quando erravam de compartimento, eram observados por todos, com vários meneios de pescoço. Sem qualquer constrangimento, os olhos se cruzavam e, por si só, falavam e se entendiam. Não havia discriminação nessas trocas de olhares, e sim a surpresa de s...

A MARIA FUMAÇA

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  Quando fomos morar no Rio de Janeiro, ainda era criança.  E até hoje ouço o barulho do trem de ferro sobre os trilhos, alongando o som do seu apito:   - Piuííí, café com pão, manteiga não, piuííí... Já escurecia quando me colocaram no dorso de um cavalo marrom, de patas dianteiras manchadas de branco.  Meu tio na sela. As esporas brilhavam nas botas surradas pelo uso. Numa das mãos, a corda do cabresto. Na outra, a minha cintura.  Homem altivo. Encardido pelo sol. Lá de cima eu assistia a tudo e não entendia nada.   Gente apertando mãos, se abraçando, falando alto. Outras, carregando malas que pareciam caixotes.   As lamparinas a querosene foram acesas. A luz penetrou pelas frestas do assoalho do casarão e iluminou arreios, freios, selas e balaios pendurados nas vigas e colunas de madeira do porão. Foi ali que aconteceram as chorosas despedidas. Chegamos à estação já com a noite fechada.   O trem sairia logo. Mas antes era pr...

PROFESSORA APAIXONADA

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Pode parecer saudosismo. E é mesmo: saudosismo!   Ser professor(a) de zona rural é ser multifacetado(a). Não basta dominar as disciplinas. Tem que saber lidar com turma multisseriada: do primeiro ao quinto ano, todos na mesma sala, tudo ao mesmo tempo. Era o antigo primário.   Foi nessa saga que Arlene entrou. Ainda jovem. Não por falta de escolha, mas por paixão. Ama o que faz.  E é por isso que carrega as lembranças estampadas na alma. Muito cedo foi designada para escolas em fazendas e lugarejos distantes da sede do município. Acordar às quatro da matina virou rotina. A hora em que só os galos tinham fôlego pra cacarejar.   Quantas vezes cochilou com os joelhos encostados na poltrona da frente do ônibus, rumo à Agrovila, pra lecionar. Quantas noites dormiu na casa da tia Mariquinha só pra pegar a lotação da madrugada e não deixar a criançada sem aula. E que alegria era vê-la chegar. Lecionar em outro distrito já causava espanto. O nome dizia tudo: D...

LUGAREJO

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                                                        Foi nesse pequeno lugarejo, que nem distrito era, que nasci. O transporte, na maioria das vezes, se fazia de carroça ou no carro de boi. A exceção só acontecia quando aparecia um caminhão para levar o café colhido, ou para fazer a mudança de algum colono para a cidade. A casa dos meus pais não era diferente das outras. Casa simples de agricultor. Portas e janelas lavradas a machado. Telhas e paredes em péssima conservação, pintadas a cal num branco já envelhecido pelo tempo.  Os cômodos eram poucos. Os móveis, rústicos, feitos à mão: camas pequenas, mesas pequenas e armários sem portas.  Na cozinha, um fogão à lenha, todo rebocado com barro branco, vulgo caulim.Na varanda, debruçada sobre o riacho, um banco de madeira. Os nós dos galhos ainda marcados no tampo, solitário, à espera de ...

O VELHO ZÉ

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                                                                     O VELHO ZÉ É... na propriedade do meu avô de Alberico era assim: os bois, bem que nasciam, já eram castrados e, quando garrotes, treinados para a lida. Assim, aprendiam logo o comando do carreiro. Se o carreiro notasse que o boi não dava para a coisa, o transferia logo para o engenho de cana, para fazer o melaço da rapadura ou do açúcar mascavo batido. Tarefa enfadonha! Ficava rodando em volta do tronco o dia inteiro. Outros iam para a olaria, puxar o carretão de tijolos refratários. Ficavam ali, numa ida e vinda sem fim, suportando as espetadas no lombo, mais o solavanco da carga e da descarga da tabatinga. Esses ainda eram bois de sorte, pois aqueles que não tinham serventia nenhuma eram abatidos, ficando com suas carnes e couros no sal, exposto...

CABEÇA DE BACALHAU

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 CABEÇA DE BACALHAU De repente, em um momento de alegria e muita descontração, em ambiente refinado, com boa música e muita prosa. A aniversariante, fora indagada em seu niver, pelas parças selecionadas a "dedo". Aborrecentes de outrora, acompanhadas dos também seletos amigos da juventude: Caramelo, Águia Dourada e o destacado Corcel de rabo irrepreensível. Ah! Urso Polar não pôde comparecer, mas mandou sua representante à caráter. Você pode até não acreditar, mas o belo Opala da saudosa Ellen adentrou o espaço gourmet com os faróis acesos e as lanternas piscando... uma beleza!   Dentro dele, uma renca de loiras bem-humoradas a desfilar nas ruas turvas de paralelepípedos, com pouca iluminação, na prometida cidade de agora. Como se diria em italiano: Belle Ragazze. Ou à brasileira: um desbunde! rsrs... Na verdade, não sabemos ao certo o porquê daquela resposta inusitada da anfitriã, em momento de regozijo e muita espontaneidade:   "- Meu marido é igual cabeça de ...

BOI DE GUIA

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  Aôa!!! Afasta boi Piano, entra boi Bordado! Um trancava, o outro seguia na curva do grotão. O primeiro parecia gente, entendia tudo que se falava. O segundo era um sem-vergonha, fingia que não entendia, mas dava conta do recado. Nem pareciam irmãos gêmeos de puro sangue. Gritar com bois de guia, nem pensar. O certo é conversar pouco e dar a ordem de uma só vez. A voz tem que ser baixa e firme. Boi de guia não pode ficar confuso, senão estonteia todos os outros bois sob o seu comando. No eixo, amarrada por corrente, uma tora de mais de sete metros, com dez palmos de diâmetro. O peso do jacarandá, no terreno irregular, forçava as brochas de couro presas na última junta de bois. Castelo e Sargento não reclamavam, aguentavam o repuxo, junto ao cabeçalho. No meio, entre os primeiros e os últimos, mais quatro juntas faziam a força, obedecendo ao balanço do carretão: Prefeito e Fumaça; Azulado e Pinta Silva; Andarilho e Manchado; Pintado e Ouro Branco. Esses bois, desde garrotes, eram c...