VIAGEM DE TREM


As paradas do trem nas estações sempre eram providas de biscoitos caseiros, broas de fubá, pedaços dequeijo da roça, carne de porco conservada na gordura e uma cuia de coité cheia de farofa de ovos.

Os passageiros que embarcavam nas cidadezinhas eram, de certa forma, tipos sofridos e engraçados: gente simples, quase esfarrapada. Uns, com pés descalços e unhas sujas de terra da lavoura. Outros, com sapatos velhos e brilhosos, recém-lustrados. Os engraxates de plantão andavam de um lado para o outro nas plataformas, com uma caixa de madeira, oferecendo seus serviços:

- Vai uma graxa aí, seu moço?

Em nosso vagão, raramente entrava algum figurão. Esses estavam instalados na primeira classe, onde havia, inclusive, leitos com colchões de molas. Quando erravam de compartimento, eram observados por todos, com vários meneios de pescoço. Sem qualquer constrangimento, os olhos se cruzavam e, por si só, falavam e se entendiam. Não havia discriminação nessas trocas de olhares, e sim a surpresa de se ter no mesmo espaço alguém tão diferente: cabeça erguida, cabelos bem cortados, barba rapada e bigode aparado; vestido em um terno branco, em puro linho; sob a gravata de seda ainda reluzia o brilho da goma passada a ferro quente sobre a gola e os punhos da camisa com botões de madrepérola; no bolso do paletó, um lenço, também branco, combinando com todo o conjunto; nos pés, sapatos de cromo feitos à mão. Sempre que ele se deparava com alguma dama, retirava da cabeça o lindo chapéu panamá, levando-o à altura do peito em sinal de respeito. Devia ser um grande proprietário de terras, talvez um coronel da velha República em viagem de negócios à capital federal.

Outros passageiros enrolavam à mão, na ponta dos dedos, os cigarros de palha, com fumo de rolo cortado a canivete. Depois davam o acabamento final levando-os aos lábios e untando as extremidades com gosma de saliva. Quando acesos, empesteavam todo o ambiente. A catinga era tanta que provocava um tremendo mal-estar nas crianças e nas grávidas. Nos homens, raramente. Esses já estavam curtidos de nicotina até a alma, contribuindo para as tosses, pigarros e as fungações da velharia que, também por vício, não largava a latinha de rapé.

No corredor do banheiro, uma porta de treliça de madeira com vidros na parte superior denunciava outro compartimento com diversas mesas. Pela manhã era servido o café e, à noite, os boêmios se divertiam no jogo de vísporas, com um toco de charuto quase apagado sobre o cinzeiro e um copo de vinho ou cachaça sobre a mesa.

Só ouvíamos o cantador de pedra anunciar os números: 33... 27... 55... e em seguida um acertador esbaforido gritar:

- Bati! Bati!

Apresentando-se imediatamente com uma cartela verde nas mãos para receber o prêmio. As pedras eram conferidas, uma a uma, e mostradas para o restante dos perdedores, que resmungavam sem hesitar:

- Engoliu barriga, ô espertalhão, essa pedra ainda não saiu!

A jogatina ia quase a noite inteira, quando então entrava o guarda noturno, que mais parecia um soldadinho de chumbo, com uma lanterna acesa na mão, informando que todos já estavam dormindo e que o silêncio se fazia necessário.

Piuííí! Já estava amanhecendo quando o trem de ferro fez mais uma parada. Acordamos com a algazarra dos agitados ambulantes, que invadiam os corredores oferecendo balas, doces, biscoitos de vento e toda sorte de bugigangas:

- Quem vai, quem vem, uma é cinquenta, três é cem! Olha a mariola!

Anunciou um mulatinho sarará vendedor de doces, tornando a insistir:

- Quem vai querer mariola?

Piuííí... Saídos os ambulantes, outra partida. Um dos pivetes desconsiderou o aviso e continuou a fazer firulas, preso às argolas no teto do vagão, com a cabeça para baixo e os joelhos dobrados nos aros, rindo e fazendo palhaçadas. O movimento de largada não o intimidava. De repente, quando a velocidade foi aumentando, num solavanco de segunda marcha, o menino num salto, quase de capoeirista, virou um vulto translúcido na plataforma da estação.

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Salatiel Barbosa


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