RETRATO FALADO

                            A SAGA DE ALBERICO - 


Alberico se encontrava em alto-mar, lutando contra a tempestade que se abatia sobre o pequeno veleiro. As águas da chuva, misturadas às ondas do mar, arremessavam de todos os lados, numa só invernada, rajadas ininterruptas de vento e granizo.

As velas já estavam praticamente arriadas. Restava, agora, evitar que fossem à deriva. O barco rodopiava de um lado para o outro sob a nebulosa escuridão. O esbranquiçado das ondas e da chuva, na diagonal, batia com toda a força sobre a proteção da cabine, que a qualquer momento poderia ser transpassada. Dava a impressão de ser quase impossível vencer o vendaval. Mas, como por encanto, os vidros resistiram àquelas investidas malsucedidas.

As botas de borracha, encharcadas até os canos, e a capa de chuva, que de nada adiantavam a não ser prejudicar os movimentos na condução do leme, faziam com que Alberico quase perdesse o controle a cada minuto. Mesmo assim, não poderia ceder ao ímpeto de se despojar daquelas proteções e se expor ao vento frio que, de forma impiedosa, permanecia sobre seu corpo. Seria suicídio, na certa. Teria que perseverar, resistir o mais que pudesse e, acima de tudo, efetuar manobras arriscadas na tentativa de vencer não só a tempestade, mas também o medo, que a cada trovoada o deixava mais e mais apavorado.

A investida de uma onda violenta sobrepôs-se ao convés, acompanhada de uma rajada de vento, derrubando-o sobre o banco de madeira. Por um instante, pensou que seria jogado ao mar. Mas, precavido, segurou-se a uma corda amarrada ao mastro. Nada mais se via, a não ser o clarão dos relâmpagos que insistiam em anunciar um novo estrondo sobre sua pequena embarcação. A tempestade não dava qualquer sinal em acabar. Horas e horas de luta intermitente.

Meio grogue pela ressaca do mar ou pela profundidade do sono, não sabendo ao certo se estava acordado ou dormindo, viu os primeiros clarões da madrugada em águas cristalinas.

O barco flutuava num mar de calmaria. Nem uma marola sequer.

Ao longe, entre a linha do oceano e o encontro com o infinito, um navio se anunciava com suas bandeiras coladas às nuvens. Por um segundo, pensou que o transatlântico pudesse cair no precipício do além, mas mãos invisíveis o mantinham em equilíbrio. À sua frente, terra firme, repleta de pequenos barcos de pescadores, com as ondas num ir e vir frenético sobre a areia fina e branca da prainha, contrastando com o colorido encardido das casinhas ao pé do monte.

Ainda em transe, sentou-se sobre a proa. Ou melhor, sobre a cama, a observar aquela aldeia bucólica. Deu-se conta de que aquela travessia fora um sonho, um aviso. E de que, na vida real, ele teria que atravessar muitas turbulências, vendavais, maremotos. Mas, no tempo certo, sua vida estaria fadada aos ventos calmos, à segurança, à estabilidade e à bonança.

Agora acordado, na varanda, passou a observar um ponto fixo no horizonte, completamente inebriado em seus pensamentos, procurando um entendimento, uma significação mais precisa naquele emaranhado de símbolos. Ali, não se importando com os barulhos do cotidiano, entrou no silêncio profundo do seu ser, em visita às outras vidas vividas por ele nessa existência.

Imagens coloridas foram estampadas na tela do seu inconsciente, como se estivesse a rever, num filme, o seu passado. Antes em pequenos pedaços, agora por inteiro, sem cortes. Como querer mostrar, assim como no sonho, as idas e vindas na busca pela sobrevivência nesse mar de incertezas que é a própria vida: sonhada, sofrida, brincada. Do menino, do jovem, do homem, do velho que, por circunstâncias alheias à sua vontade, é escolhido, induzido, conduzido a viver longe de sua gente.

Na periferia da cidade grande, esperançoso por dias melhores, sem saber, sem ter uma noção exata, contribui para o desenvolvimento, para o progresso que, pouco a pouco, passa a destruir os seus sonhos e a sua família. Mas, mesmo assim, no imaginário, enxerga sempre uma luz no fim do túnel. Nunca desiste, insiste, persiste, acreditando que o quadro de desolação é temporário e que, com um pouco mais de luta, irá encontrar a vitória tão almejada.

Esse povo de luta, de guerra, de vitórias, que se espalha pelo Brasil, pelo mundo afora, construindo as grandes metrópoles sem qualquer condição econômica, dá o seu sangue, a sua alma e, na maioria das vezes, é esquecido, largado, abandonado pelos detentores do poder econômico e político, que enriqueceram e se elegeram à custa do suor e das lágrimas dessa gente sofrida e humilhada.

Nesse momento, as imagens se tornam mais nítidas e, como num passe de mágica, ele passa a ouvir no interior da sua alma a narrativa de um menino pobre do interior, que junto com sua família busca, na periferia dos grandes centros, uma nova perspectiva de vida, idealizada na superação das adversidades.


Salatiel Barbosa

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