BOI DE GUIA
Aôa!!! Afasta boi Piano, entra boi Bordado! Um trancava, o outro seguia na curva do grotão. O primeiro parecia gente, entendia tudo que se falava. O segundo era um sem-vergonha, fingia que não entendia, mas dava conta do recado. Nem pareciam irmãos gêmeos de puro sangue. Gritar com bois de guia, nem pensar. O certo é conversar pouco e dar a ordem de uma só vez. A voz tem que ser baixa e firme. Boi de guia não pode ficar confuso, senão estonteia todos os outros bois sob o seu comando.
No eixo, amarrada por corrente, uma tora de mais de sete metros, com dez palmos de diâmetro. O peso do jacarandá, no terreno irregular, forçava as brochas de couro presas na última junta de bois. Castelo e Sargento não reclamavam, aguentavam o repuxo, junto ao cabeçalho. No meio, entre os primeiros e os últimos, mais quatro juntas faziam a força, obedecendo ao balanço do carretão: Prefeito e Fumaça; Azulado e Pinta Silva; Andarilho e Manchado; Pintado e Ouro Branco.
Esses bois, desde garrotes, eram colocados na canga, lado a lado, com os bois mais velhos. Agora, numa manobra para descer o morro, o carreiro colocava-os na marra, presos por correntes ao carretão. Funcionavam como freios na pirambeira abaixo. Piano e Bordado, na frente, iam guiando. Se Castelo e Sargento falhasse, seriam sacrificados.
A experiência, a habilidade e o manejo do carreiro é que tornavam a empreitada mais ou menos arriscada. Sem ele não era possível retirar as toras da mata. Com bastante prudência, desceram com certa facilidade e avançaram para o local de reversão da junta. Castelo e Sargento voltaram para a frente do cabeçalho e os outros, como antes, entre eles e os bois de guia.
O caminho estava livre, era hora de se despreocupar. O candeeiro, de pé torto, com uma vara comprida na mão, ia à frente abrindo as porteiras e cantarolando uma cantiga que mais parecia um lamento, combinando com o ranger das rodas de madeira do carretão, que se escutava ao longe de forma intermitente: _Ian... ian... ian..._
Sentado por cima do cabeçalho, o carreiro pensava em como passaria pela grota do Joaquim: a tora era muito comprida e teria dificuldade. Não demorou muito e teve que dar a ordem mais uma vez: - Aôôa!!! Boi Bordado. Aôôa, boi Piano. Os bois de trás também já entendiam esse comando, parando todos de uma só vez. O carreiro apeou para verificar o declive da grota. Era quase que uma valeta. Descia e subia logo em seguida.
Resolveu correr o risco, não colocando os bois na marra, e em seguida gritou para os bois de guia: "Vencedores, avante!!!" Num só solavanco começaram a descer a pequena grota. O peso do tronco foi quase todo por cima de Castelo e Sargento, mas em seguida o carreiro voltou a gritar: "Arriba, boi Bordado!!! Arriba, boi Piano!!! Aguenta, Prefeito e Fumaça!!! Suporta, Azulado e Pinta Silva!!! Força, Andarilho e Manchado!!! É agora, Pintado e Ouro Branco!!!"
Na hora em que começaram a subir, a tora ainda não havia descido. Foi o suficiente para o desespero do candeeiro. Castelo e Sargento ficaram suspensos pelos canzis, enforcados pelas brochas de couro. O carreiro entrou por baixo dos bois, tentando desamarrar a fivela, e não conseguiu. Naquele momento, mil pensamentos passaram pela sua cabeça. Os bois, já de olhos esbugalhados, viam o diabo pela greta.
O candeeiro, desesperado, começou a gritar. O carreiro só viu quando seu tio Joaquim desceu cafezal abaixo com uma foice, em direção aos bois dependurados. Em dois golpes certeiros, cortou as brochas de couro que os seguravam. Os dois bois despencaram sobre o pequeno córrego, fazendo com que a tora descesse.
Os outros bois suportaram a empreitada e arribaram, chegando logo em terreno plano para descansarem. Enquanto isso, Castelo e Sargento eram reconduzidos à canga para, depois, seguirem viagem rumo ao lugarejo de três ruas chamado Olho D’água.
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Salatel Barbosa

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