PROFESSORA APAIXONADA



Pode parecer saudosismo. E é mesmo: saudosismo!  

Ser professor(a) de zona rural é ser multifacetado(a). Não basta dominar as disciplinas. Tem que saber lidar com turma multisseriada: do primeiro ao quinto ano, todos na mesma sala, tudo ao mesmo tempo. Era o antigo primário.  

Foi nessa saga que Arlene entrou. Ainda jovem. Não por falta de escolha, mas por paixão. Ama o que faz.  E é por isso que carrega as lembranças estampadas na alma.

Muito cedo foi designada para escolas em fazendas e lugarejos distantes da sede do município. Acordar às quatro da matina virou rotina. A hora em que só os galos tinham fôlego pra cacarejar.  

Quantas vezes cochilou com os joelhos encostados na poltrona da frente do ônibus, rumo à Agrovila, pra lecionar. Quantas noites dormiu na casa da tia Mariquinha só pra pegar a lotação da madrugada e não deixar a criançada sem aula. E que alegria era vê-la chegar.

Lecionar em outro distrito já causava espanto. O nome dizia tudo: DESENGANO.  Estrada de chão, esburacada, empoeirada. Gado e seus excrementos convivendo em perfeita harmonia a céu aberto.  

O único jeito de chegar à escola era na carroceria do caminhão que recolhia coco. Uma espelunca com forro de madeira furado, onde o vento e a poeira faziam parte do trajeto. O rosto ficava maquiado de pó. O cabelo, laqueado de poeira. Duro de doer.

Em dias de chuva a estrada virava lama. Sem carona, sem aula. Retornava no sábado pra cumprir a carga horária do MEC.  E na volta para casa, às vezes, era a cavalo até o distrito de Guaraná. Uma luta. Mas ali ela se tornou amazona, com o beneplácito dos alunos.

No Guaxe era uma aventura a céu aberto. Que delícia!  

Os cabelos de Arlene esvoaçavam enquanto pilotava a moto na estrada de chão. Atrás, a colega maluquinha no banco de carona. Gargalhadas aos montes, rumo à escolinha do patrimônio, com a cachorrada latindo.  Pernas pra lá, pernas pra cá, chute pra todo lado e o grito: "Sai! Sai!! Sai!!!"  

Isso quando não topavam com uma boiada no caminho. Aí desciam da motocicleta e passavam por baixo da cerca de arame farpado. Chegava a ser cômico.

Em dias de chuva, tiravam sapatos e sandálias. Dobravam a calça até a canela pra empurrar a "perereca" pelas poças que se formavam entre os pneus.  Chegavam na escola como quem sai de uma trincheira de guerra após abater o inimigo: felizes. Às vezes ovacionadas pela molecada de plantão. Uma algazarra.

Ufa! Labuta entre "cobras e lagartos", enveredando por "Sertões e Veredas". Lá, onde mora a Diadorim.

Só quem viveu essa experiencia sabe mensurar a agrura e o prazer de ser professora do interior.


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Salatiel Barbosa

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