FESTA ESCOLAR


Era o mês de junho. Os ensaios de quadrilha davam um colorido novo às feições da garotada, principalmente quando se aproximavam os dias de Santo Antônio, São João e São Pedro.

Nos ensaios não era necessário, mas nos torneios sim: o rapaz tinha que se apresentar a caráter. Bigodinho e cavanhaque de roceiro, riscados a lápis crayon ou a carvão, eram imprescindíveis. A calça remendada com retalhos combinando com uma camisa quadriculada de flanela, dobrada até o cotovelo. Sapatos do último Natal, apertados, rasgados, deixando aparecer o dedão dos pés; lenço de qualquer cor com laço amarrado ao pescoço. Lá estava Alberico em busca de sua dama.

Essa, sempre com cabelos à Maria Chiquinha, matreira, com seu vestido de rendas e laços vermelhos desde a manga da blusa até o decote da cintura. As meias subiam até a altura dos joelhos, encontrando-se com as barras brancas do vestido rodado. Só se ouvia o mestre na pista de terra gritar:

— Anarriê!

— Caminho da roça!

— Olha a cobra!

A escola ficava toda enfeitada de bandeirinhas coloridas amarradas nos fios de barbante, preparadas pelos próprios alunos. A fogueira era feita de troncos de árvores secas que os pais buscavam na mata do aterro. Os pedaços maiores por baixo, os menores por cima, em forma de pirâmide.

Antes de escurecer, o fogo era ateado na madeira. A garotada ficava esperando as labaredas diminuírem até que se formasse certa quantidade de brasas. Quando elas apareciam, não perdiam tempo: colocavam batatas-doces, aipim, espigas de milho verde que já estavam à mão e esperavam, bem perto da fogueira, que ficassem assadas. Que delícia!

Não demorava muito e já estavam escolhidos para a corrida do ovo na colher. Os adultos primeiro, depois a molecada. Entravam dentro de um saco de estopa segurando uma colher com um ovo dentro e ficavam ali próximos à marca de cal riscada no chão, cinco ou seis concorrentes em cada grupo.

O sinal da largada era dado,  a correria embolada, com meios pulos, começava. Caía-se de todo jeito, esborrachando-se sobre a colher, sobre o ovo. Às vezes, uns sobre os outros, mas nunca se machucavam. Tudo por uma prenda: para os adultos, um frango assado; para as crianças, bolinho de chuva.

As barracas com tabuleiros de cuscuz, cocadas, bolos e pudins ficavam sempre rodeadas de meninas. Umas ajudando as mães, outras comendo sem parar os deliciosos quitutes. Na barraca do jogo de argolas, sempre havia um rapazinho tentando laçar uma garrafa de vinho composto. Quando conseguia, o grupo de colegas se aproximava para, juntos, beberem escondidos num canto escuro da festa.

Os homens ficavam jogando porrinha próximos a um caldeirão de bebida chamada "quentão", carregado de gengibre, canela e cachaça. Na hora certa, após as apostas, saíam todos alegres em direção ao pau de sebo que estava deitado ao lado do buraco, à espera do envelope com dinheiro vivo.

Assim que o pau de sebo ficava de pé, bem socado na terra, com pedras pequenas para dar sustentação, estava autorizado o início da competição: um moleque empurra o outro para lá. O primeiro sobe, vai até o meio e volta escorregando feito sabão. Organizam-se e sobem uns nas costas dos outros, com os bolsos lotados de areia para facilitar a escalada. Quando chega bem próximo à ponta do pau, o menino falseia uma das mãos para apanhar o envelope. É o suficiente para despencar, um a um, sem nada terem conseguido. A noite toda a guerra era travada em volta do pau de sebo!

No palco improvisado, coberto por folhas de pindoba, o sanfoneiro rasgava o fole. Os casais dançavam de uma ponta a outra do salão de terra batida, num tremendo bate-coxa. A poeira subia, misturando-se com a serração. Marinha não quis nem saber, sapecou um beijo arrasa-quarteirão na boca do parceiro. Tião, meio desconcertado, puxou Marinha para o centro da pista, segurando-a pela cintura, colada ao cinturão, quando então o cantor soltou o refrão:

"Vem cá, cintura fina,

cintura de pilão...

Cintura de menina,

vem cá, meu coração."


Salatiel Barbosa

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