CAFÉ COM PÃO... MANTEIGA NÃO
A chegada do trem à estação, na Baixada Fluminense, alvoroçou os passageiros: cabelos desarrumados, crianças chorando, mais o cansaço da noite não dormida, fizeram com que o nervosismo ficasse estampado na cara da família de Alberico. Retirantes caipiras que não sabiam o que fazer.
Suas feições eram de indagação:
— Será que estão nos esperando?
— Não sei, não, mas, via das dúvidas, procure no fundo da mala o envelope da carta da prima Neuza e, se preciso for, peça a alguém para nos ajudar!
— Se ela não vier, estamos perdidos. Como vamos nos arranjar, com pouco dinheiro e sem ter para onde ir?
— Procure, mulher, e pare de falar. Parece que não confia em Deus?
Já passava das duas da tarde. Neuza os esperava desde o meio-dia.
O calor era insuportável naquele mês de janeiro, as trovoadas já se anunciavam e as chuvas eram mais do que previstas. Preocupados, atravessaram a cancela em busca da condução que os levaria a Xerém.
Terminal rodoviário não existia. O que havia era uma placa com o desenho de um ônibus de cara comprida, pendurada num poste. Esperaram bastante tempo, até que o bendito do papa-fila chegou. As malas e os embornais foram praticamente empurrados pelo corredor estreito, esbarrando ora nas poltronas, ora nas pernas dos passageiros. Os outros pacotes seriam buscados na Praça Mauá no dia seguinte, assim que devidamente conferidos pelos funcionários da Estação Ferroviária Leopoldina.
Dentro do ônibus, observavam os estragos que uma tromba-d'água havia feito às casas e propriedades na beira da estrada Rio-Petrópolis. Os rios Sarapuí e Iguaçu estavam transbordando, colocando em risco toda aquela população desprovida de qualquer recurso, alojada em barracos embrenhados num fedorento lamaçal.
Quando passaram em frente a um bairro de nome Pilar, Neuza informou que a igreja em estilo barroco ali existente era centenária e que a família real, em suas viagens a Petrópolis, utilizava o mesmo percurso por ser próximo às encostas da serra, onde podia se desviar das áreas alagadas da baixada.
Informou, ainda, que deveriam ter muito cuidado com roubos e assaltos. A cidade era muito perigosa e quem combatia a criminalidade era um deputado destemido que andava com uma metralhadora chamada "Lurdinha" debaixo de sua capa preta, acostumado a fazer justiça com as próprias mãos.
Chegando ao ponto final de nome Mantiqueira, caminharam em direção a uma casinha de madeira construída bem próximo ao riacho.
Pela porta dos fundos do casebre, cortada pelo meio, com a parte de baixo presa por uma tramela e a outra aberta até o canto, se observa mulheres de vestidos compridos, dobrados até a altura dos joelhos, lavando e batendo roupas em uma pedra grande e achatada na beira do córrego. Algumas delas, com as mãos cheias de areia, esfregavam panelas que, de tão brilhosas, refletiam o sol no pé do morro.
Neuza se mostrava bastante satisfeita e receptiva, com os olhos brilhando e falando sempre com um sorriso nos lábios:
— Não se preocupem, onde come um, comem dez! — tranquilizou os parentes recém-chegados.
Na manhã seguinte, ALBERICO pode comprovar o refrão cantarolado por sua mãe no trem: café com pão, manteiga não, não, não...
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Salatiel Barbosa

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