OS VIZINHOS DO 506
Ainda ontem, depois de 15 anos, deparei-me com minha nova vizinha, recém-instalada no 506. De forma educada, a cumprimentei.
Ao invés de me retribuir urbanamente as boas-vindas, sacou do coldre uma pistola já um pouco enferrujada e disparou:
— Você que é o morador do apartamento acima do meu? Pois é, estou incomodada! Nesse prédio arrastam cadeiras, cachorro late noite e dia, e a vizinha do meu andar não dobra a maçaneta da porta ao entrar ou ao sair. Mudei em busca de sossego, pois o antigo era um barulho infernal.
Naquele mesmo instante percebi que não se tratava de uma pistola, mas sim de uma metralhadora à tiracolo, conduzida por uma barraqueira de plantão. Sorrateiramente, bati em retirada.
Como se tais inquietudes injustificadas não fossem suficientes, nos dias seguintes notei que o marido da dita cuja não era muito diferente. Pelo contrário, era padrão. Esse se aboleta na área condominial, passando a utilizar a pia do salão gourmet para fazer suas higienes matinais: barba, cabelo e bigode, sem o menor pudor. Inclusive, os vasos sanitários do ambiente de festas já não exalavam aquele cheirinho de eucalipto. Melhor não comentar.
No tocante às áreas privativas da garagem, esta passou a ser uma oficina improvisada de mobiletes ultrapassadas, irradiando fumaça e gasolina pelas ventas.
O síndico, ainda jovem, marinheiro de primeira viagem, está desesperado.
Juro, fiquei com pena dele.
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Salatiel Barbosa

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